Casamento de Germano Lauffer e Alma Ella Renck em 1923, em Igrejinha
O casamento de Germano Lauffer e Alma Ella Renck, realizado em 25 de agosto de 1923, em Igrejinha, permite observar não apenas a união de duas famílias de origem germânica, mas também um pouco da formação histórica do Vale do Paranhana. A partir dos registros civis consultados, é possível recuperar dados sobre o casal, seus familiares, seus filhos e o contexto regional em que viviam.
Na época, Igrejinha ainda não era município emancipado. A localidade estava vinculada administrativamente a Taquara, situação que ajuda a explicar por que documentos civis e publicações comerciais do período reúnem, sob a referência taquarense, lugares como Igrejinha, Sander, Mundo Novo, Quilombo, Moreira, Santa Maria do Mundo Novo e Fazenda Fialho.
Essa ligação vem de uma formação territorial mais antiga. A região integrava a antiga Colônia de Santa Maria do Mundo Novo, organizada a partir da década de 1840, no processo de colonização conduzido por Tristão José Monteiro. A colônia era dividida em seções: Baixa Santa Maria, associada à atual Taquara; Média Santa Maria, correspondente à região de Igrejinha; e Alta Santa Maria, ligada ao atual município de Três Coroas. Com o passar do tempo, esses núcleos ganharam identidade própria, mas permaneceram por décadas dentro da mesma estrutura administrativa. Três Coroas tornou-se município em 12 de maio de 1959, enquanto Igrejinha só alcançou sua emancipação em 1º de junho de 1964.
Assim, quando os documentos registram o casamento de Germano e Alma em Igrejinha, mas dentro da jurisdição de Taquara, isso não representa contradição. Era o reflexo da organização política e territorial daquele período, em que famílias, propriedades, igrejas, comércios, moinhos, serrarias e pequenas fábricas se distribuíam por localidades próximas, muito antes da divisão municipal que conhecemos hoje.
Germano Lauffer e Alma Ella Renck
No registro civil de casamento, Germano Lauffer aparece com 24 anos, agricultor, nascido em 30 de abril de 1899, filho legítimo de Jacob Lauffer e Carolina Franck. Alma Ella Renck aparece no mesmo registro com 20 anos, ligada ao serviço doméstico, nascida em 22 de outubro de 1902, filha legítima de Gustav Adolpho Renck e Delphina Eckardt. O casamento de seus pais, Gustav Adolph e Delphina, ocorreu em 22 de julho de 1893, provavelmente em Igrejinha.
O casal viveu ligado ao chamado Canto dos Renck, na Rua dos Renck, 647, localidade marcada pela presença da família de Alma. Segundo o Inventário do Patrimônio Histórico Arquitetônico e Artístico de Igrejinha, “geralmente, as propriedades do Canto dos Renck possuíam em torno de 50 hectares de terras. O entorno das residências evidencia o cotidiano das famílias cuja atividade principal era a agropecuária – galinheiro, pocilga, estábulo, árvores frutíferas, horta”.
A residência associada ao casal teve sua construção datada de 1929. Conforme o mesmo inventário, ela “foi construída com tijolo assentado em barro e as madeiras foram retiradas da própria região e serradas na Serraria de Edmundo Kichler. No sótão eram guardados objetos antigos, revistas, livros e também poderia servir de dormitório. No porão eram guardados os alimentos e o vinho produzido pela família Laufer. Até 1950, a energia era fornecida pelo Moinho Kichler”.
Como era costume em muitas comunidades do interior, os velórios aconteciam nas próprias residências ou na casa de familiares. O inventário também registra que a casa serviu para velórios de membros da família, incluindo Alma Ella, falecida em 12 de agosto de 1983, e Germano Lauffer, falecido em 1º de fevereiro de 1985.
Sobre Germano Lauffer
Germano nasceu em 30 de abril de 1899, conforme consta nos registros civis consultados. Era filho de Jacob Lauffer e Carolina Franck, família ligada à região de Sander e Quilombo, no atual município de Três Coroas. Em algumas referências familiares, seu nome aparece associado à forma germânica Hermann, mas nos documentos civis analisados ele já surge como Germano, grafia pela qual ficou conhecido. Germano viveu em uma região onde a agricultura familiar, os moinhos, as serrarias e o pequeno comércio formavam a base da economia local. Faleceu em 1º de fevereiro de 1985, aos 85 anos.

Sobre Alma Ella Renck
Alma Ella Renck nasceu em 22 de outubro de 1902, em Igrejinha, filha de Gustav Adolph Renck (1871–1969) e Delphina Eckardt (1872–1955). Casou-se com Germano Lauffer em 25 de agosto de 1923 e faleceu em 12 de agosto de 1983, aos 80 anos.
Hoje pouco utilizado, o segundo nome Ella era bastante comum em famílias de origem germânica da região, assim como outros nomes femininos recorrentes nos registros da época, entre eles Hulda, Theolinda, Teckla, Katharine, Karoline, Alzira, Hedwig e Wilhelmine.
Filhos documentados
Os registros civis posteriores confirmam pelo menos dois filhos do casal. Um deles foi Benno Nilo Laufer/Lauffer, nascido em 22 de março de 1927, que se casou em 2 de abril de 1949, em Igrejinha, com Paula Emelinda Zwetsch. No registro, Benno aparece como agricultor.
Outra filha documentada é Helga Ilse, nascida em 1º de maio de 1930, que se casou em 14 de junho de 1952, também em Igrejinha, com Laureano Samuel Raymundo, funileiro, residente em Sapiranga.
Família Lauffer, Almanak Laemmert e economia regional
A edição de 1935 do Almanak Laemmert: Administrativo, Mercantil e Industrial ajuda a compreender melhor a presença da família Lauffer na vida econômica regional. Nas páginas dedicadas a Taquara, aparecem diversas localidades que hoje associamos a municípios, bairros ou comunidades distintas, mas que naquele período integravam a mesma rede administrativa e comercial.
Entre as atividades listadas estavam carpintarias e marcenarias, moinhos de trigo e milho, fábricas de óleos, serrarias, olarias, funilarias, depósitos de madeira, produção de mel, fábricas de vinhos, além de casas comerciais de secos e molhados. A publicação mostra uma região sustentada por pequenas propriedades, oficinas familiares, produção agrícola e beneficiamento de produtos locais.
No ramo de carpintarias e marcenarias, aparece E. Laufer, da Estação Sander, cuja identificação completa ainda não foi possível confirmar com segurança. Já na relação de moinhos de trigo e milho, surge Fred. Laufer, de Santa Maria do Mundo Novo. Em outra seção, dedicada à fabricação de óleos, aparece Fred. Lauffer, de Moreira. Essas entradas abreviadas exigem cruzamento com outras fontes, mas dialogam diretamente com os irmãos de Germano citados na genealogia familiar: Fredelino Lauffer e Frederico Lauffer.
Fredelino Lauffer
Fredelino nasceu em 19 de janeiro de 1896 e faleceu em 27 de junho de 1987. Casou-se com Hulda Schaefer em setembro de 1920. Hulda nasceu em 1900 e faleceu em 1937, ainda jovem. O casal teve ao menos dois filhos.
A presença de uma entrada como Fredelino, ligada a moinho em Santa Maria do Mundo Novo, reforça a ligação da família com atividades típicas da economia rural da região, especialmente o beneficiamento de trigo e milho, fundamentais para o abastecimento das comunidades locais.
Frederico Lauffer
Frederico nasceu em 24 de fevereiro de 1887 e faleceu em 1º de abril de 1966. Foi batizado como Friedrich Lauffer, tendo seu nome posteriormente aportuguesado, como ocorreu com tantos descendentes de imigrantes alemães no Rio Grande do Sul.
Casou-se com Carolina Lorenz, nascida em 1889, em 16 de agosto de 1913, em Três Coroas. O casal teve ao menos duas filhas. A entrada “Fred. Lauffer”, registrada no Almanak Laemmert como fabricante de óleos em Moreira, pode estar ligada a Frederico, embora a abreviação do nome recomende cautela na identificação definitiva.
Theobaldo Lauffer e a continuidade das terras familiares
Outro documento importante para compreender a presença da família Lauffer na região é o Projeto de Lei Municipal nº 3.597/2018, de Três Coroas, que tratou da denominação da Rua Theobaldo Lauffer, no Loteamento Krause.
A justificativa informa que Theobaldo Lauffer nasceu em 20 de maio de 1884, em Três Coroas, filho de Jakob Lauffer e Carolina Franck. Portanto, era irmão de Germano Lauffer. Theobaldo foi casado com Amália Scherer, filha de Jakob Scherer e Karoline Kampff Scherer. Segundo o documento, ele herdou terras pertencentes ao pai, foi agricultor e era avô de Jorge Krause, proprietário e idealizador do Loteamento Krause. Theobaldo faleceu em 19 de julho de 1967.
Esse dado é interessante porque mostra a continuidade da história familiar no território. Terras inicialmente ligadas à agricultura e à colonização alemã acabaram, décadas depois, incorporadas ao processo de urbanização de Três Coroas, permanecendo na memória local através da denominação de uma rua.
O trem e a circulação regional
Outro elemento importante para entender a região é a ferrovia. Boa parte da produção local, antes escoada por caminhos difíceis e pelas vias fluviais, passou a contar com o apoio da linha férrea, que chegou a Taquara em 1903 e avançou em direção à Serra nas décadas seguintes. A ferrovia contribuiu para integrar localidades como Taquara, Igrejinha, Três Coroas, Gramado e Canela, facilitando o transporte de mercadorias, passageiros e correspondências.
Até 1964, o trem foi uma das principais vias de circulação entre Hamburgo Velho e Canela. Com a expansão das rodovias e o uso crescente de caminhões, esse modelo de transporte entrou em declínio, restando hoje as memórias daquele tempo em que a vida econômica e social da região passava também pelos trilhos. De acordo com o Inventário, a estrada de ferro passava perto de uma das residências do Canto dos Renck: “O trem passava apitando e em seus vagões transportava gado. Esta passagem acabava atraindo os olhares de admiração das crianças”.
Ligações familiares
Alma Ella Renck era prima sétima do trisavô da minha esposa, João Streit Filho (29 de setembro de 1873 – 8 de outubro de 1930), casado com Adelina Henrietta Renner (15 de maio de 1878 – sem data de falecimento localizada).
A ligação entre as famílias vem de séculos atrás, através dos antepassados da 11ª geração da minha esposa, Johann Andreas Griebel (15 de abril de 1650 – 9 de fevereiro de 1727) e Anna Sophia Hanau (19 de fevereiro de 1654 – 29 de abril de 1722), cujo casamento foi realizado em 25 de fevereiro de 1671, em Oberdiebach, localidade hoje situada no distrito de Mainz-Bingen, no estado da Renânia-Palatinado, na Alemanha.
Entre os nomes citados nesta matéria, Hulda Schaefer, Carolina Lorenz, João Kichler e Oscar Puls também possuem algum tipo de parentesco comigo ou com minha esposa. São ligações que revelam uma ampla rede de informações genealógicas, cheia de caminhos ainda a serem explorados e, como tantas pesquisas familiares, dificilmente encerrada por completo.
Revista Diário da Ferrovia:
A Revista Diário da Ferrovia – assim como seu site e redes sociais – traz matérias sobre pessoas, lugares e acontecimentos e a história das localidades onde a VFRGS (Viação Férrea do Rio Grande do Sul) passava entre 1903 e 1964, de Hamburgo Velho até Canela. A primeira edição da revista está disponível para download ou visualização na tela através dos links abaixo:
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Fontes:
ALMANAK LAEMMERT: administrativo, mercantil e industrial. Rio de Janeiro: Laemmert, 1935. Seção Rio Grande do Sul, Taquara.
ENGELMANN, Erni Guilherme. A saga dos alemães: do Hunsrück para Santa Maria do Mundo Novo. Igrejinha, RS: E. G. Engelmann, 2004. 3 v.
FAMILYSEARCH. Germano Lauffer. Perfil LCMZ-ZXT. Disponível em: https://www.familysearch.org/tree/person/details/LCMZ-ZXT. Acesso em: 13 set. 2026.
IGREJINHA. Prefeitura Municipal. História de Igrejinha. Igrejinha, RS: Prefeitura Municipal de Igrejinha. Disponível em: https://www.igrejinha.rs.gov.br. Acesso em: 13 set. 2026.
REINHEIMER, Dalva N.; SMANIOTTO, Elaine. Inventário do Patrimônio Histórico Arquitetônico e Artístico de Igrejinha. Igrejinha, RS: Prefeitura Municipal de Igrejinha; Taquara, RS: FACCAT, 2009.
RIO GRANDE DO SUL. Registro Civil. Registro de casamento de Germano Lauffer e Alma Ella Renck. Igrejinha, 25 ago. 1923. Disponível no Family Search.
RIO GRANDE DO SUL. Registro Civil. Registro de casamento de Benno Nilo Laufer e Paula Emelinda Zwetsch. Igrejinha, 2 abr. 1949. Disponível no Family Search.
RIO GRANDE DO SUL. Registro Civil. Registro de casamento de Helga Ilse Lauffer e Laureano Samuel Raymundo. Igrejinha, 14 jun. 1952. Disponível no Family Search.
TAQUARA. Taquara (Rio Grande do Sul). In: WIKIPÉDIA: a enciclopédia livre. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Taquara_(Rio_Grande_do_Sul). Acesso em: 13 set. 2026.
TRÊS COROAS. Prefeitura Municipal. História de Três Coroas. Três Coroas, RS: Prefeitura Municipal de Três Coroas. Disponível em: https://www.trescoroas.rs.gov.br. Acesso em: 13 set. 2026.
TRÊS COROAS. Projeto de Lei Municipal n. 3.597, de 30 de janeiro de 2018. Denomina Rua Theobaldo Lauffer a Rua C do Loteamento Krause. Três Coroas, RS: Câmara Municipal de Três Coroas, 2018.
Créditos da foto:
Acervo do Laboratório de Ensino de História e Acervo de História Regional da FACCAT. Editada/colorizada por Maicon Leite.
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