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João Mosmann e a pedra fundamental da Igreja Católica em Parobé

João Mosmann e a pedra fundamental da Igreja Católica em Parobé

O resgate de fontes primárias constitui o núcleo da reconstrução historiográfica regional, permitindo decifrar a evolução dos arranjos urbanos e institucionais a partir das ações de seus agentes propulsores. No caso de Parobé — antigo terceiro distrito do município de Taquara —, a análise de um periódico da capital, o jornal A Federação, datado de 24 de junho de 1911, há exatos 115 anos, descortina as minúcias do processo de estabelecimento da comunidade e sua primeira estrutura religiosa, centralizada na atuação de João Mosmann, aqui tratado como Capitão.

Para compreender a inserção desse documento na cronologia local, faz-se necessário recuar à própria gênese do povoado. João Mosmann foi o artífice de uma das primeiras habitações que, próximo a posterior estação ferroviária, delimitou o núcleo urbano nascente. O traçado dos trilhos da viação férrea e a própria parada de trens foram implantados em terras de sua propriedade, conferindo-lhe centralidade nas decisões políticas e espaciais da região. Membro do Conselho Municipal de Taquara e residente de uma histórica propriedade edificada em 1880, e que ainda está de pé, na esquina entre a Rua Mário Mosmann e a Avenida das Nações, Mosmann exercia uma liderança que extrapolava as esferas administrativa e econômica, incidindo diretamente no amparo social e espiritual dos moradores.

Até o início da década de 1910, a inexistência de um templo católico impunha restrições severas às práticas litúrgicas do distrito. Diante desse cenário, a família Mosmann cedeu as dependências de sua serraria e atafona (moenda de farinha) para que as missas fossem celebradas de forma improvisada. Reconhecendo a precariedade e a inadequação do espaço para o crescimento demográfico do vilarejo, o capitão, com 60 anos de idade recém completados (nasceu em 15 de abril de 1851), realizou a doação do terreno definitivo para a edificação de um templo próprio. Além de ceder o solo, Mosmann destinou uma expressiva quantidade de pedras brutas para a sustentação dos alicerces da obra.

A nota publicada em A Federação registra com exatidão o marco zero dessa empreitada coletiva: o lançamento da pedra fundamental da capela ocorreria precisamente naquele sábado, 24 de junho de 1911. A coincidência com o dia consagrado a São João Batista no calendário litúrgico romano fixou, documentalmente, o padroeiro da localidade. Após muito trabalho, a inauguração da pequena capela original data do ano de 1917. Entretanto, até o momento não possuo mais detalhes sobre o acontecimento além dos relatados no jornal.

O desenvolvimento do complexo eclesiástico refletiu o ritmo de crescimento do distrito nas décadas seguintes. O arranjo arquitetônico inicial, desprovido de ornamentos verticais, foi modificado em 1931 com a ereção da torre dos sinos. Na década de 1940, a necessidade de ampliação demandou a reconstrução do corpo principal da igreja; contudo, a torre de 1931 foi preservada e integrada à nova estrutura. Esse conjunto arquitetônico compôs o cenário clássico do centro de Parobé durante meados do século XX, caracterizado pelo tráfego das locomotivas a vapor (“Marias Fumaças”) que cruzavam a via férrea disposta imediatamente em frente à paróquia.

A manutenção das obras e a vida social em torno da capela dependiam do associativismo comunitário, manifestado principalmente nas festividades juninas do padroeiro. Realizadas no pátio frontal, as celebrações contavam com estruturas efêmeras de madeira e tendas de lona devido à escassez de recursos para a construção de um pavilhão permanente. Dentre as atrações voltadas à arrecadação de fundos, os registros apontam a popularidade da tenda do “Pradinho”, um engenho mecânico composto por quatro aros horizontais móveis de metal onde eram fixados pequenos cavalos com jóqueis coloridos. O operador impulsionava o mecanismo e os aros perdiam velocidade de forma irregular até que uma trava determinasse o vencedor. O jogo, que atraía apostadores locais, foi descontinuado após a proibição legal de modalidades comerciais baseadas em valores monetários.

Além do caráter devocional, o registro de 1911 expõe as tensões logísticas e administrativas que regulavam a mobilidade no Vale do Paranhana. A nota ecoava uma queixa formalizada pelo periódico O Mundo Novo acerca da divisão eclesiástica da época. Embora Parobé estivesse geograficamente vinculada a Taquara, de acordo com a nota os fiéis e a capela subordinavam-se à jurisdição da paróquia de Novo Hamburgo. Sob o prisma da infraestrutura de transportes da era ferroviária, o deslocamento de um sacerdote de Novo Hamburgo para um atendimento emergencial demandava um trajeto de aproximadamente duas horas por trem. Em contrapartida, o vigário da Paróquia de Taquara, distante apenas uma légua legal, reunia condições táticas de cumprir o percurso a cavalo em trinta minutos.

A superação desses entraves institucionais e o pleno amadurecimento da comunidade católica local consolidaram-se décadas mais tarde. No Natal de 1962, por meio de decreto episcopal, o templo fundado sobre as pedras de João Mosmann foi formalmente elevado à dignidade de Paróquia São João Batista, recebendo seu primeiro pároco residente, o Padre Adolfo Jorge Fontana, no início de 1963. O documento de 1911 permanece, portanto, como uma peça-chave para a historiografia regional, demonstrando como a convergência entre a infraestrutura privada, o transporte ferroviário e a organização comunitária moldaram o traçado urbano e a identidade cultural do município.

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Confira a transcrição completa da nota publicada no jornal:

“Trata-se de erigir, em Parobé, uma bonita capella, para o que, já existe, no local, gentilmente doado pelo nosso amigo capitão João Mossmann, membro do conselho do municipio, grande quantidade de pedras para os alicerces, que já estão recebendo a necessaria mão de obra.

Para esse emprehendimento o povo tanto do local, como de forá, nas immediações, não poupa esforços, querendo impor a pedra fundamental no dia 24 do corrente.

— O Mundo Novo, folha local, dirige uma reclamação ao sr. Arcebispo. Não sabemos,—reclama o collega—porque as populações catholicas da ponte do Arroio Grande, actual divisa do municipio da Taquara com o de S. Leopoldo, inclusive Parobé, pertencem á vigararia de Novo Hamburgo, quando, Parobé 3º districto do municipio da Taquara, apenas está distante da respectiva villa uma legua e a ponte a que acima alludimos, apenas duas leguas e poucos metros mais. Ora, computada essa distancia com a de Novo Hamburgo, emquanto venha um sacerdote, attender um chamado urgente, com duas horas, no minimo de viagem (no trem), o vigario da Taquara, á cavallo, em 30 minutos, attenderá ao chamado, que por dever de caridade attende, não por obrigação. Parece injusta esta invasão de sacerdotes de um para outro municipio, uma vez que as divisas civis, por emquanto, estão bem delineadas”.

Nas imagens que compõem nossa matéria, criadas através do Gemini com o intuito de ilustrar os acontecimentos, retratamos João Mosmann assentando a pedra fundamental, acompanhado de um padre e de outras pessoas, em uma cerimônia simbólica, enquanto na outra imagem, temos dois homens guiando uma junta de bois carregando pedras para a construção da igreja. Ao fundo, uma paisagem tipicamente do interior, retratando o interior de Parobé.

Revista Diário da Ferrovia:

A Revista Diário da Ferrovia – assim como seu site e redes sociais – traz matérias sobre pessoas, lugares e acontecimentos e a história das localidades onde a VFRGS (Viação Férrea do Rio Grande do Sul) passava entre 1903 e 1964, de Hamburgo Velho até Canela. A primeira edição da revista está disponível para download ou visualização na tela através dos links abaixo:

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Fonte:

TAQUARA. A Federação, Porto Alegre, ano 28, n. 145, p. 1, 24 jun. 1911. Disponível em https://memoria.bn.gov.br/hdb/periodico.aspx. Acesso em: 23 jun. 2026.

Créditos da foto:

Imagens criadas por Maicon Leite via Gemini

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